A solução que vem do céu

André Trigueiro

O Globo, 29 de outubro de 2003 (Rio de Janeiro)

Num país tropical, em que a incidência de chuvas é maior do que em outras regiões do planeta, a maioria dos brasileiros ainda não se deu conta do  tamanho do desperdício acumulado a cada novo temporal. Ao contrário do que acontece no campo, onde a água da chuva é sinônimo de prosperidade e colheita farta, nas cidades - onde vivem 81% da população - os dias de chuva são associados a trânsito lento, risco de enchentes e outros incômodos que emprestam mau humor aos dias nublados.

Mas a impopularidade da chuva nos ambientes urbanos está com os dias contados. Aos poucos, vai aumentando a percepção de que a água que cai generosamente sobre os telhados deve ser melhor aproveitada antes de sumir nos ralos.

Em Curitiba, por exemplo, foi sancionada no final de setembro a lei que obriga todos os novos condomínios residenciais a incorporarem no projeto de construção a captação, o armazenamento e a utilização da água da chuva para múltiplos usos em substituição à cada vez mais cara água clorada: lavagem de roupas, veículos, pisos e calçadas, rega de hortas e jardins. No caso específico dos sanitários, que consomem em média 70% de toda a água numa construção, a Lei torna obrigatória a canalização das águas usadas na lavagem de roupas, chuveiros ou banheiras para uma cisterna, onde serão filtradas e posteriormente reutilizadas nas descargas. Só depois essa água é descartada para a rede de esgotos. Torna-se obrigatório o uso de vasos sanitários, torneiras e chuveiros que economizem água. Outro aspecto importante da nova iei diz respeito à instalação obrigatória de hidrômetros individuais nas novas edificações, evitando-se assim que o consumidor que desperdiça água se beneficie do rateio da conta pelo condomínio, prejudicando quem já aprendeu a não esbanjar esse recurso finito, escasso e cada vez mais caro. 

Um projeto de Lei parecido com o de Curitiba está tramitando na Câmara Municipal de Goiânia. O vereador que pede a atenção dos colegas para o uso inteligente da  água da chuva, aguarda a votação de um outro projeto de sua autoria ,em que sugere a aplicação de sanções aos que forem flagrados desperdiçando água no uso de mangueiras para lavagem de ruas, calçadas e carros.


Em São Paulo, um decreto publicado no Diário oficial no dia 5 de janeiro de 2002, estabelece que todos os proprietários de imóveis que querem fazer reformas ou novas construções devem providenciar cisternas que ajudem a reter a água da chuva. O tamanho dos reservatórios varia de acordo com as dimensões da obra. A lei parte do princípio de que a crescente impermeabilização do solo agrava o problema das enchentes na cidade, e que o responsável pela obra deve aumentar a capacidade de retenção da água da chuva em dias de temporal. A Lei das Piscininhas, assim chamada por causa dos piscinões - imensos reservatórios públicos que atenuam mas não resolvem o problema das enchentes em São Paulo - é o ponto de partida para o uso racional da água da chuva na maior cidade do Brasil. Se a lei já tornou obrigatória a construção do reservatório, porque não investir na reutilização da água da chuva nos múltiplos usos domésticos ou comerciais? Pelas contas da ANA - Agência Nacional de Água - a quantidade de chuva que cai durante um ano sobre um telhado de 100 metros quadrados em São Paulo, é suficiente para abastecer uma família de quatro pessoas durante seis meses.

Neste ano internacional da água doce, segundo a ONU, e na véspera do ano quem que a Campanha da Fraternidade da CNBB terá como tema a água, é importante explorar todo o potencial de um recurso que vem do céu, cai generosamente sobre as nossas cabeças, sem que nos demos conta de seu imenso valor.