A água na Campanha da Fraternidade

André Trigueiro

Revista Família Cristã, janeiro de 2004

A maior nação católica do mundo está sendo convocada a somar forças na luta contra o desperdício e pelo uso racional de um recurso fundamental à manutenção da vida, e que vem se tornando cada vez mais raro, escasso e caro. A água doce, embora abundante no Brasil  - temos aproximadamente 13% de toda a água doce disponível no planeta - é mal distribuída em nosso país. A Bacia Amazônica, que concentra 70% de toda a água doce do Brasil, abriga apenas 4% da população. Nas demais regiões do país, a degradação dos mananciais numa escala sem precedentes ameaça o abastecimento de água potável e leva as autoridades a recorrerem à medidas extremas, como é o caso do racionamento, já rotineiro na região metropolitana do Recife, e ocasional em alguns bairros de São Paulo.

Não é possível discutir a situação dos 12 mil rios e córregos do Brasil sem considerar o problema da falta de saneamento. De acordo com o IBGE, 60% do lixo produzido do país não recebem tratamento adequado.  São milhares de toneladas de sujeira abandonadas em aterros clandestinos, situados muitas das vezes nas margens de rios e lagoas. A parte líquida do lixo, o chorume, se infiltra no solo contaminando as águas subterrâneas e poluindo os mananciais. 

Ainda de acordo com o IBGE, menos de 20% dos esgotos produzidos no país recebem algum tipo de tratamento. O resto é lançado in natura nas águas, disseminando doenças e mortes. A maior parte das internações hospitalares registradas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) tem origem em doenças de veiculação hídrica, ou seja, nos males transmitidos pela água suja. Estima-se que 50 pessoas morram por dia no Brasil por causa dessas doenças, a maioria crianças de zero a seis anos, acometidas de diarréias.

Outro dado estarrecedor e que ilustra a urgência com que devemos  cobrar investimentos para o setor saneamento foi apurado pelo coordenador do Laboratório de Hidrologia da COPPE (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia) da UFRJ , Paulo Canedo. Segundo ele, dos  5.600 municípios brasileiros, apenas 13 cuidam exemplarmente de seus esgotos. Um vexame. Para piorar a situação, quanto maior a poluição dos rios, maior as despesas das companhias de abastecimento de água, que invariavelmente repassam esses custos adicionais aos consumidores. A água bruta captada nos mananciais passa por um processo de tratamento que requer a adição de produtos químicos como sulfato de alumínio, cal, cloro, algicida, flúor, etc. Somente no Rio de Janeiro, a CEDAE gasta por ano 50 milhões de reais na compra desses produtos para despoluir as águas do rio Guandu, e garantir o abastecimento de 8,5 milhões de pessoas. Esses gastos vem aumentando ano a ano e não há perspectiva de quando seja possível usar menos produtos químicos no processo de limpeza - o que sinalizaria a melhoria da qualidade da água bruta do rio. Na região metropolitana de São Paulo, onde a Sabesp fornece água para 18 milhões de pessoas, a situação não é diferente. A produção de água aumentou 8% num intervalo de 4 anos. Neste mesmo período, o volume de produtos químicos usados no processo de limpeza da água aumentou 40%. Feitas as contas, chega-se à impressionante marca de 170 mil toneladas de produtos químicos por ano, o suficiente para  carregar 17 mil caminhões. Os recursos destinados à compra desses produtos químicos passaram de R$34 milhões de reais em 1998 para R$ 60 milhões de reais em 2002. Tanto em São Paulo como no Rio, teme-se pelo esgotamento dos mananciais, já que dependendo do nível de poluição, não há produto químico que dê jeito.

Nesse contexto, torna-se ainda mais urgente a multiplicação de campanhas contra o desperdício de água dentro de casa, nas indústrias, nas lavouras, e principalmente nas companhias de abastecimento, onde a perda do precioso líquido alcança índices escandalosos. No Rio de Janeiro, por exemplo, a a CEDAE ostenta um dos piores índices de perda do Brasil. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (Snis), nada menos que 54% da água que sai da estação de tratamento se perdem no meio do caminho por causa de ligações clandestinas, vazamentos e problemas de medição, índice muita acima da média registrada em países do primeiro mundo, que é de 8%.  Essa perda de água tratada custa caro aos já combalidos cofres públicos do Estado, que deixaram de receber 639 milhões de reais em 2002, dinheiro que faz falta para a compra de hidrômetros, extensão da rede de abastecimento, substituição de tubulações velhas, etc.

Assim como a CEDAE, outras companhias públicas de abastecimento ostentam indicadores vergonhosos de desperdício. Uma das soluções possíveis seria buscar um modelo de gestão compartilhada em que o poder público e a iniciativa privada dividissem custos e responsabilidades. Ao governo caberia a definição das regras, que deveriam garantir a universalização dos serviço de água e esgoto, sem prejuízos para a população mais pobre. Na opinião de alguns especialistas, uma gestão eficiente - instalando hidrômetros para medir o consumo individual de água, substituindo as tubulações velhas, impedindo a multiplicação desenfreada de"gatos", especialmente entre consumidores que poderiam pagar a conta, etc -serviria para reduzir o imenso desperdício que se vê no Brasil, aumentar a arrecadação e custear os serviços de água e esgoto para os mais pobres.

Como até hoje essas regras não foram definidas com clareza - o atual governo promete fazê-lo em breve através da nova lei da Parceria Público Privada -  a dúvida dá margem a um mar de incertezas. É nesse contexto que a Campanha da Fraternidade chega em boa hora, lembrando que a água é um bem público, que todos nós temos direito à água limpa e de qualidade, e que cada pequeno gesto em defesa do mais básico dos elementos é tarefa inadiável e urgente.