A química da água

André Trigueiro

O Globo, 6 de maio de 2003 (Rio de Janeiro)

O nível de degradação dos mananciais que abastecem o Rio de Janeiro e São Paulo pode ser medido pelo aumento sem precedentes do volume de produtos químicos usados nas estações de tratamento de água.  Na região metropolitana de São Paulo, onde a SABESP fornece água potável para 18 milhões de pessoas, a produção de água aumentou 8% num intervalo de 4 anos.

Neste mesmo período, o volume de produtos químicos usados no processo de limpeza da água aumentou 40%. Feitas as contas, chega-se à impressionante marca de 170 mil toneladas de insumos químicos por ano, o equivalente a 17 mil caminhões carregados de sulfato de alumínio, cal, cloro, algicida, flúor e outros produtos que são misturados à água a fim de torná-la própria para consumo. Embora de ótima qualidade, a água tratada pela SABESP torna-se cada vez mais indigesta para as contas da companhia.  Os recursos destinados para a compra de produtos químicos passaram de R$ 34,2 milhões  em 1998 para R$ 60 milhões em 2002.

Parte do problema tem origem na baixa oferta desses produtos no mercado, onde há suspeita de cartelização. Apenas para  citar um exemplo, o preço do sulfato de alumínio, usado no processo de floculação - que agrega a parte mais sólida das impurezas da água - dobrou em menos de um ano. Para agravar a situação, novos tipos de poluição demandam novos produtos para o tratamento. É o caso das algas, que se multiplicam nas águas contaminadas pelos esgotos domésticos, se alimentando de  nutrientes como fósforo e nitrogênio.

Para livrar a água dos resíduos tóxicos e orgânicos das algas, a SABESP foi obrigada a incorporar ao processo de tratamento carvão ativo e permanganato de potássio. Mas o que mais incomoda os estrategistas da companhia é a degradação de manaciais importantes, como o do sistema Billings-Guarapiranga, responsável por 21% de todo o abastecimento da região metropolitana. Aproximadamente um milhão e meio de pessoas vivem em áreas de ocupação perigosamente perto das represas que estocam água cada vez mais poluída, o que demanda cada vez mais recursos para o tratamento. Com equipamentos de última geração e monitoramento on line de toda a água que entra e que sai das estações de tratamento, a situação está sob controle e não há riscos para a população.  Mas a situação a longo prazo preocupa.

No final de maio, os técnicos da Companhia definirão o novo Plano Diretor que servirá de base para as ações futuras nas áreas de captação, tratamento e abastecimento de água para uma população que cresce a uma taxa de 1,4% ao ano. Em números redondos, o desafio é oferecer água potável para mais um milhão de pessoas a cada 4 anos numa região que tem a menor disponibilidade hídrica per capita do Brasil. 

Enquanto São Paulo procura alternativas para garantir o abastecimento no futuro, o Rio de Janeiro padece no presente da falta de opções ao Rio Guandu, que abastece 80% da região metropolitana, o equivalente a 8,5 milhões de pessoas. Esse nível de dependência do Guandu, um dos rios mais poluídos da bacia do Rio Paraíba do Sul, inspira cuidados.

Ao contrário de São Paulo, que dispõe de um número maior de opções para a captação de água - metade do abastecimento tem origem no Sistema Cantareira que não é tão poluído quanto o sistema Billings- Guarapiranga - o Rio de Janeiro se ressente falta de outros manaciais que possam reforçar o estoque de água doce para consumo em escala. Toda vez que chove forte, a estação de tratamento do rio Guandu entra em estado de alerta. A chuva carreia para o rio toda sorte de detritos e sedimentos que sobrecarregam o trabalho de limpeza. Dependendo da intensidade da chuva, o abastecimento pode a ser suspenso por alguns minutos ou horas. "Eu posso tratar da água. Mas não faço mágica", explicava um ex-diretor da CEDAE sempre que perguntado sobre o assunto.

Nesses dias de chuva, a estação do Guandu triplica a quantidade de sulfato de alumínio usado no tratamento. Das 280 toneladas diárias, passa-se para 840 toneladas. Merece atenção o fato de que se o   Guandu fosse um rio tecnicamente limpo, a quantidade de sulfato de alumínio necessário para tornar a água bruta própria para o consumo humano seria de apenas 28 toneladas por dia. Em situação de normalidade, ou seja, nos dias em que não chove, a companhia já está usando dez vezes mais do que isso. Em média, a CEDAE utiliza 330 toneladas de produtos químicos por dia somente na Estação de Tratamento do Rio Guandu. É muito mais do que São Paulo, se considerado o volume de insumos químicos per capita. 

Se a chuva é problema, os longos períodos de estiagem também preocupam. É que o sol forte, associado aos esgotos domésticos que são lançados in natura no rio, favorecem a multiplicação das algas. Em São Paulo, como vimos, a opção é pelo tratamento. Na CEDAE, toda vez que os equipamentos que monitoram a qualidade da água detectam a presença dessas algas em níveis que exigem algum tipo de intervenção química, o processo de tratamento é simplesmente interrompido, ou seja, o fornecimento de água é suspenso. Embora a companhia disponha de todos os recursos para retirar os resíduos químicos e tóxicos deixados pelas algas, o processo de limpeza, nesse casos, deixa a água tratada impregnada de um mal cheiro que já justificou muitas queixas contra a Companhia.

Embora potável, a água nessas condições deixa o consumidor desconfiado pelo odor desagradável que exala. Para evitar esse tipo de problema, a Cedae decidiu nesses casos suspender o tratamento. Embora isso não aconteça com frequência ,  o fato é que a maior estação do mundo em produção de água tratada com 42 mil litros de água por segundo já reconhece nas algas dos esgotos um inimigo respeitável. A degradação do Rio Guandu faz com que a CEDAE seja obrigada a gastar 50 milhões de reais por ano ( comparação com anos anteriores)  somente com produtos químicos usados no processo de tratamento, uma soma de dinheiro superior ao que é gasto pela SABESP em São Paulo, considerando o custo per capita.

Como se vê, cariocas e paulistas tornaram-se "dependentes químicos" quando o assunto é água potável. Mas como a maior parte dos consumidores é cobrada por estimativa, e não pelo que de fato consome, esses custos crescentes que castigam o orçamento das companhias estaduais não pesam diretamente no bolso de quem usa água clorada para tudo, até para serviços em que não haveria necessidade de se desperdiçar água potável como lavagem de carro e calçada, rega de jardins e descarga de vaso sanitário. Esse modelo predatório que privilegia o uso perdulário e o desperdício de água é agravado pelo descaso histórico das autoridades para com a preservação dos mananciais, a proteção das matas ciliares e das nascentes. Se não houver uma política que privilegie em caráter de urgência a gestão sustentável dos recursos hídricos com fiscalização atuante e a aplicação rigorosa da lei, não haverá produto químico em quantidade suficiente para garantir água potável e de boa qualidade para milhões de brasileiros.