Paraíba do Sul agoniza sufocado em esgoto

Tulio Brandão

O Globo, 11 de abril de 2004 (Rio de Janeiro)

Dona Maria do Carmo sempre tirou o peixe do almoço, lavou roupa e descansou da rotina de doméstica à beira do Rio Paraíba do Sul. Mas, ultimamente, anda preocupada. É que a água, diz ela, rareou demais e o esgoto, antes um pingo na imensidão, tomou conta das margens. Maria, moradora de uma favela de Campos, tem apenas intuição ribeirinha, mas chegou à mesma conclusão que os estudiosos do Laboratório de Hidrologia da Coppe/UFRJ: o Paraíba corre o risco iminente de colapso e o Estado do Rio, de ficar sem água para beber ainda este ano.

O coordenador do laboratório, Paulo Canedo, justifica o alarme. Ele explica que o nível dos reservatórios do rio chegou apenas a 42% no auge da estação chuvosa, o mesmo do ano passado, repetindo o pior percentual da história. Em 2003, várias manobras de diminuição de vazão foram feitas para evitar a seca e chegamos a outubro com 4,2%. De acordo com ele, se o reservatório se mantiver assim até outubro (fim da época seca), o obstáculo à água potável no estado será a sujeira. Um bilhão de litros de esgoto e sete toneladas são lançados diariamente no Rio Paraíba do Sul.

— É como um cobertor curto. A diminuição da vazão compromete o volume d'água necessário para a diluição dos efluentes. Corremos dois riscos: de sofrer com falta d'água ou com a água ficar contaminada por não ter sido tratada. Calculo que haja 65% de chances de termos problemas neste ano. E, até agora, nada foi feito — critica Canedo.

Cedae afirma que a situação está sob controle

Canedo diz que a diferença em relação ao ano passado, quando as antigas regras de vazão do Paraíba foram alteradas para evitar o colapso, é a capacidade do maior de todos os reservatórios, o Paraibuna, em São Paulo. Hoje, segundo Canedo, é 6% inferior à do ano passado, mesmo com as restrições impostas à vazão.

O alerta da Coppe não soa na Cedae. O diretor do órgão, Jorge Briard, diz que a Estação de Guandu — destino de dois terços da água do Rio Paraíba do Sul e responsável pela captação de 80% da água da Região Metropolitana e da capital do Rio e pelo monitoramento da qualidade da água do rio — está sob controle. Ele explica que o principal problema gerado pela escassez d'água são as cianobactérias produzidas por algas, que se propagam com o excesso de matéria orgânica não diluída.

— Se mantivermos o nível da barragem em 11,7 metros, como está hoje, não haverá problemas. A Cedae, através de um monitoramento diário, tem o crescimento da colônia de algas sob controle. No entanto, se houver diminuição da vazão em relação ao mínimo deste ano (109 metros cúbicos por segundo), os índices poderiam cair a um nível prejudicial e teríamos que reduzir a captação para garantir a água tratada. Ainda assim, podemos aumentar a barragem. Não vejo, portanto, um risco iminente de restrição ao abastecimento — diz Briard.

Não há polêmica, no entanto, quando se fala das condições ambientais do Rio Paraíba do Sul. Canedo afirma que, sem a degradação da água e das margens existente atualmente, aquele corpo hídrico não estaria à beira de um colapso. Durante uma semana, repórteres do GLOBO percorreram toda a extensão fluminense do rio — da Represa do Funil à foz, em São João da Barra — para realizar uma série de reportagens sobre o assunto.

Em toda a extensão do rio, visto da margem ou de embarcações, é possível identificar manilhas lançando efluentes domésticos e industriais sem tratamento no rio, áreas marginais desmatadas e erodidas, além de ocupações irregulares, entre outros danos ambientais.

Feema diz que esgoto é o maior problema

Para a presidente da Feema, Isaura Fraga, atualmente, o grande vilão do Rio Paraíba do Sul é o esgoto doméstico. Num levantamento feito de 1991 a 2001, os índices de coliformes fecais ultrapassam até 50 vezes no curso do rio e 160 vezes em afluentes o limite estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Para ela, a poluição industrial — principal problema do passado na bacia, gerado sobretudo pela antiga falta de controle de emissão dos efluentes da Companhia Siderúrgica Nacional — atualmente é secundário. As décadas sem fiscalização, no entanto, ainda deixam marcas: a Feema encontrou na camada fina dos sedimentos do rio em Volta Redonda 1.200 microgramas por grama de cromo. Não há padrão nacional para metal pesado, mas está quase dez vezes acima do máximo permitido pela Agência de Proteção do Meio Ambiente dos Estados Unidos.

— O alvo agora é o saneamento. Mas precisamos, mais que tudo, enterrar uma cultura enraizada na região de dar as costas para o rio. Não à toa, não há casas viradas para o Paraíba, são todas de fundo, como uma área de serviço onde jogam todo o lixo — diz Isaura.

A cultura do lixo é tão disseminada que o esgoto já foi usado como isca de peixe. É o que conta o ambientalista Roberto Silva, de Barra Mansa:

— Há uma história conhecida aqui de um senhor que pegava pedaços de fezes com a mão, misturava com fubá e pregava no anzol. É uma história repugnante, mas verdadeira. Este é o Paraíba.

Região concentra 11% do PIB do país

A bacia do rio que corta três dos principais estados do país — Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo — sempre ostentou o título de mais importante para a economia nacional. Atualmente, as 6.100 indústrias instaladas no vale, tendo à frente a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), são responsáveis por 11% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. No passado, contudo, a região do Rio Paraíba do Sul foi ainda mais importante para o país. O historiador Milton Teixeira conta que, no século 19, durante o ciclo do café, a região reuniu algumas das maiores fortunas do mundo:

— Era uma das regiões mais ricas do mundo, onde habitavam figurões como o comendador Joaquim José de Souza Breves, dono de 70 propriedades e de cidades inteiras, como Mangaratiba, e bairros, como Sepetiba.

A região, antes da chegada do homem ocidental, era ocupada por índios goitacazes no Norte Fluminense e puris e coroados Rio Paraíba acima. Paraíba, em tupi, significa rio (pará) grande (iba). Os indígenas foram caçados para trabalhar em lavouras. O solo, com pequenas ondulações que escoavam no rio, à época era considerado ideal para o café. Além disso, as estações definidas (seca e chuvosa) da região facilitavam essa cultura. Assim, segundo Teixeira, em 1780 o chamado “ouro verde” chegou ao vale, pelas mãos de mineiros, próximo ao Rio Paraibuna.

— Dali, espalhou-se como uma mancha de tinta por diversas cidades, como Resende, Valença, Piraí, Mendes, Vassouras, que logo tornaram-se grandes centros produtores de café. Na safra de 1884/1885, só no Vale do Paraíba, foram colhidos 2,6 milhões de sacas de café — lembra Teixeira.

O solo logo chega à exaustão e filhos de pioneiros cafeicultores abandonaram o negócio. A agricultura e a pecuária tornaram-se, então, uma alternativa. As primeiras indústrias surgem do beneficiamento de alimentos, como leite e carne, no fim do século 19. Logo estradas cortando os três estados do vale são abertas e, em 1941, surge na região a Companhia Siderúrgica Nacional.