As aberrações do fundo do Rio Paraíba do Sul

Tulio Brandão

O Globo, 12 de abril de 2004 (Rio de Janeiro)

As décadas de descaso das indústrias e do poder público no Rio Paraíba do Sul estão duramente marcadas nos peixes. Estudo realizado pelo ictiólogo Gustavo Nunan, do Museu Nacional da UFRJ, a pedido da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), revelou anomalias monstruosas sobretudo em espécies que vivem próximas aos sedimentos. É no fundo que se fixam resíduos tóxicos como benzopireno e ascarel, despejados nos rios durante anos pelas indústrias. A maior vítima é o cascudo, espécie que apresentou deformações graves em 35,6% das unidades coletadas abaixo da CSN.

Entre as anomalias, observou-se problemas de má formação — como inexistência ou deformação de nadadeiras, barbilhões nos olhos e escamação anormal — neoplasmas (tumores) e lesões cutâneas. O estudo de Nunan não é o primeiro a identificar deformidades nos peixes do Paraíba do Sul. Outras análises, realizadas na década de 80 (a Feema fez a primeira de 1980 a 1983), já haviam revelado graves problemas. Na ocasião, o índice de cascudos com anomalias passava de 70%. Em relação ao levantamento atual, houve uma redução de 50%, mas o ictiólogo, em seu relatório, alerta que a redução não significa melhora na qualidade das águas do Paraíba, e sim uma equalização dos problemas, antes restritos à área da CSN.

As deformidades, na literatura especializada, estão associadas aos hidrocarbonetos aromáticos polinucleares, em especial ao benzopireno, altamente cancerígeno, gerado nos processos de produção de alumínio, aglomerados de carvão e na limpeza de fornos e caldeiras — todas atividades executadas pela CSN, em Volta Redonda. Nunan, no entanto, é cauteloso ao apontar responsáveis pelo passivo ambiental de resíduos tóxicos, fixados nos sedimentos do Paraíba do Sul. Falta, para ele, um estudo aprofundado que identifique exatamente as substâncias contaminantes dos peixes:

— Não existem trabalhos recentes sobre a contaminação do pescado na região. Quem deveria gerar tais dados é a Feema ou a Agência Nacional de Águas (ANA). Milhares de substâncias podem contaminar o Paraíba, não somente os efluentes industriais. O esgoto sanitário é atualmente o principal problema do rio — diz o pesquisador.

Biólogo diz que não há risco em se comer esses peixes

O próprio relatório, porém, menciona o impacto ambiental no Rio Paraíba provocado por décadas pela siderúrgica.

Segundo o ictiólogo, não há risco no consumo do peixe contaminado pelos hidrocarbonetos aromáticos polinucleares (HACs), já que não se concentram nos organismos.

— Os HACs são metabolizados pelo organismo. Não havendo bioconcentração, não há problema. Risco existe é para os peixes, que estão expostos diretamente e já acusam sinais de alteração. Os poluentes que bioconcentram são os metais pesados e as substâncias orgânicas organocloradas que, pelo que eu sei, não são problema grave no Médio Paraíba — diz ele.

Segundo a Feema, o trecho do rio em que o sedimento está mais contaminado por metal pesado é Volta Redonda. No entanto, o engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo confirma que a contaminação humana ainda não foi correlacionada ao consumo de peixes deformados na região. Ele enumera outras substâncias capazes de provocar alterações na ictiofauna:

— Há registros de antigos lançamentos de ascarel, substância altamente tóxica. O esgoto também pode provocar alterações. Ainda não podemos associar as anomalias ao passivo da CSN, mas sabemos que por muitos anos a siderúrgica foi principal poluidora do rio.

A Gerência de Relações Ambientais da CSN não reconhece a existência de uma relação de causa e efeito entre os peixes deformados e os resíduos da siderúrgica. No entanto, o cumprimento do terceiro aditivo do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado entre a indústria, o estado e o Ministério Público, é um sinal de que a empresa aceita a responsabilidade. Segundo a CSN, foram investidos desde a assinatura do contrato, em 2000, cerca de R$ 100 milhões no tratamento de água e dos efluentes.

Contudo, para o deputado Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Alerj, a indústria assumiu a culpa justamente após os estudos sobre peixes deformados:

— Houve responsabilidade objetiva. Nós brigamos décadas, mas só reagiram após as análises. A CSN, antes responsável por 80% do lixo industrial do rio, está entrando nos padrões. É um exemplo para todas as indústrias do Paraíba. Isso é um símbolo, mas vamos cobrar o passivo.