Teste mostra que água do Funil mata cobaias

Tulio Brandão

O Globo, 14 de abril de 2004 (Rio de Janeiro)

A nata verde das algas tóxicas contamina a Represa do Funil, o único reservatório no trecho fluminense do Rio Paraíba do Sul, cujas águas ajudam a abastecer o Rio de Janeiro. Estudos recentes da Feema com camundongos de laboratório apontaram contaminação por hepatotoxinas e neurotoxinas em 85% dos bioensaios realizados. Na análise da água feita pelo órgão, outro sinal de alerta: os índices de cianobactérias (que podem ser tóxicas ou não) ultrapassaram 100 mil células por mililitro, condição de alerta máximo para águas de mananciais segundo portaria do Ministério da Saúde.

Algas não são achadas nos pontos de captação da água

Não há, no entanto, captação direta na represa e as análises realizadas nos rios Paraíba do Sul e Guandu, próximas aos locais de retirada de água para os municípios ribeirinhos, para a Região Metropolitana e a capital, deram negativas. Para a presidente da Feema, Isaura Fraga, os resultados mostram que o problema das algas tóxicas merece atenção especial.

— É preciso diminuir a carga tóxica (de esgoto, matéria orgânica que estimula a proliferação de algas) originária de São Paulo, rio acima. Os resultados ainda não alteram características da água do Paraíba do Sul, mas o número de casos positivos é alarmante. A Feema vai se debruçar no estudo das algas este ano. Vamos pedir uma linha de pesquisa específica à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) apenas para aprofundar as análises — disse Isaura Fraga.

A chefe da Divisão de Qualidade da Água da Feema, Fátima Soares, explica que o próximo passo é identificar o volume de toxinas nas algas.

— Com camundongos, respondemos apenas se é positivo ou negativo. O próximo passo será analisar o volume e outros detalhamentos. É preciso reagir, porque a água do Funil já está no estado eutrófico (com excesso de nutrientes na água, que alteram as condições do ecossistema) — diz Fátima.

A bióloga Sandra Azevedo, professora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, e especialista em algas tóxicas, aponta uma realidade ainda mais assustadora. Em pesquisa realizada de agosto de 2002 a julho de 2003, ela isolou o número de microcistinas (toxina da Microcystis , alga tóxica mais conhecida) do Funil e constatou que em dois dos oito meses analisados o índice estava acima do limite estabelecido pelo Ministério da Saúde — um micrograma por litro (via oral em pessoas saudáveis). Em novembro, o número chegou a 1,16 e, em dezembro, a 4,47.

Além disso, na análise da presença de todas as cianobactérias, a pesquisa da UFRJ apontou índices de até 1,2 milhão de células por mililitro, sendo que 56% das amostras apresentaram valores acima de 20 mil células, índice que obriga o monitoramento semanal de microcistinas na água.

— Isso, na verdade é o preço do descaso de décadas. Em 1991, já havíamos identificado florações tóxicas de cianobactérias, que demonstraram a presença de microcistinas, no reservatório do Funil. Em condições normais não há risco mas, na seca, a nata verde pode descer até a captação, como já aconteceu uma vez — disse Sandra Azevedo.

O risco existe também no consumo do pescado do Funil. A Feema pretende usar bolsistas da Faperj para estudar a contaminação dos peixes. Na UFRJ, a bióloga Valéria Magalhães, também do Instituto de Biofísica, já iniciou um levantamento, mas ainda não tem dados disponíveis.

— Pelas características do Funil, há grandes possibilidade de os peixes estarem com microcistina nos músculos, mas não posso garantir que estão impróprios para consumo, já que existe um limite (0,04 microgramas por quilo de peso corpóreo por dia). Mas o alerta é necessário. Já está provado que essas toxinas bioacumulam no organismo.

Engenheiro químico confirma contaminação

O engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo mostrou a repórteres do GLOBO, durante viagem realizada ao longo do Rio Paraíba do Sul, uma garrafa pet cortada com um pouco da água do Funil:

— Esse caldo verde é um aglomerado de algas, que podem ser tóxicas. O esgoto que desce de São Paulo e serve de nutriente para as algas proliferarem. É uma represa completamente contaminada.

De barco, é possível ver as causas secundárias da água de má qualidade. Quase toda a margem do reservatório está degradada e, boa parte, já erodida pela água. Flocos de algas aparecem até no meio da represa, onde pescadores como Valmir dos Santos Rosa, de 40 anos, ganham a vida:

— Aumentam a poluição e o número de pescadores. Tem pelo menos 200 pessoas na colônia em Itatiaia. Nossa vida depende de um peixe sem contaminação — avisa Valmir.