A guerra do Paraíba do Sul com o mar

Tulio Brandão

O Globo, 16 de abril de 2004 (Rio de Janeiro)

O Rio Paraíba do Sul e o mar lutam há milênios pelas terras da Praia de Atafona. A arena é a foz do rio, atualmente em São João da Barra. Se computadas todas as batalhas, as águas fluviais estão em vantagem: os sedimentos levados para o encontro da água doce com a salgada fizeram com que o litoral avançasse sete metros por ano durante os últimos cinco milênios. Mas, nas últimas duas décadas dessa guerra, o mar reagiu, destruindo cerca de 400 casas, num avanço de 7,5 metros por ano. Dizem alguns geólogos, no entanto, que a reação aconteceu depois que a foz perdeu volume d’água.

Estudos mostram que o rio perdeu força com o desvio de quase 70% de seu volume d’água para o Rio Guandu, há mais de 50 anos. Também contribuíram para a situação sucessivas degradações ambientais que provocaram a redução do volume d’água. Cláudio Limeira, professor de geologia e geociências da UFRJ, acredita que a erosão esteja associada à reduzida vazão:

— O rio ainda está lá, a tendência, a longo prazo, ainda é avançar sobre o mar, mas, com a vazão diminuindo ano a ano, isso se inverte. Surge a erosão. A queda no volume d’água foi provocada pelo homem, e não apenas pela barragem. A degradação fez com que o rio tenha períodos de seca e inundações freqüentes.

Erosões de 700 metros em outros períodos

O geólogo da Universidade Federal Fluminense (UFF) Kleverson Guizan concorda que a foz sem força acentua a erosão. No entanto, acha que a erosão estaria acontecendo mesmo sem o problema no rio.

— A diminuição da capacidade sedimentar do rio contribuiu, mas constatamos que já houve erosões naturais de 700 metros em alguns períodos. Nos últimos 20 anos, o mar avançou 150 metros na costa, como comprovamos em estudos de campo. Isso pode ser parte de um período natural de erosão, só não sabemos qual é a duração — sustenta Guizan.

Para Limeira, um indício de que a força do Paraíba influencia o comportamento da faixa litorânea é a erosão no entorno da área onde ficava a antiga foz do rio, no Cabo de São Tomé:

— Desde que o rio mudou seu curso e passou a desembocar em Atafona, São Tomé vem perdendo gradativamente a faixa litorânea, à semelhança do que pode estar acontecendo agora em Atafona.

Os estudos acadêmicos não interessam ao ex-jogador de futebol Elmo de Alvarenga, de 62 anos. Olhar perdido no mar, ele tenta mostrar onde ficava sua casa, hoje submersa atrás da arrebentação.

— Minha casa foi destruída há três anos. O mar come a terra por todos os lados, ainda vai comer isso tudo aqui. Teve gente que montou barragem com três mil sacos de cimento, achando que dava para segurar a natureza. Ilusão.

Repórteres do GLOBO estiveram em Atafona e observaram bares e hotéis destruídos. Nos muros, a inscrição “O apocalipse chegou” é um sinal de que, para a comunidade, trata-se da ira divina. Dizem os antigos pescadores que o mar avançou depois que construíram a Capela de Nossa Senhora dos Navegantes de costas para o oceano. O prefeito de São João da Barra, Alberto Dauaire Filho, reage a seu modo

— Desde 1997, foram construídas 73 casas populares para os pescadores que perderam suas residências. Contratei um engenheiro que disse ser possível fazer o mar parar de avançar em Atafona.