A água nossa de cada dia por um fio

Tulio Brandão

O Globo, 18 de abril de 2004 (Rio de Janeiro)

Reservatórios chegam à metade da capacidade, estação enfrenta sobrecarga química enquanto Cedae perde 54% da produção

A água de beber está cada vez mais distante das torneiras cariocas e fluminenses. A sede começa nos reservatórios do Paraíba do Sul, responsáveis por 75% do abastecimento do estado, onde o nível d'água caiu pela metade nos últimos oito anos. No curso do rio, são adicionados um bilhão de litros de esgoto não tratado e sete toneladas de resíduos químicos por dia. A barragem de Santa Cecília, então, leva a água na direção do Rio Guandu, onde o manancial recebe mais carga de despejos industriais e domésticos. Aí, para ser tratada, recebe 300 toneladas diárias de produtos químicos  - nos últimos sete anos, esse volume aumentou 20% em situações críticas do rio. Pronta para ir ao copo, ela fica pelo caminho: 54% da água tratada pela Cedae se perdem na rede durante a distribuição.

A via-crúcis hídrica ainda não acabou. Da torneira do carioca, jorra mais água do que em todos os grandes estados do país. São 231,9 litros diários por habitante, 65% a mais que a média nacional. E, por fim, quando chega a conta, mais desperdício: apenas 56,9% do consumo de água é medido por hidrômetros - o pior índice das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Cedae: situação não está tão crítica

É um cenário catastrófico, na visão do coordenador do Comitê para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul (Ceivap), Cláudio Serricchio:

- Vivemos uma situação-limite diante de um poder público impassível. Num estado com escassez cada vez maior de recursos hídricos, há uma empresa totalmente ineficiente e, para piorar, um consumo altíssimo de água. É uma equação que não fecha. Se o quadro não se alterar, é claro, viveremos a seca.

O presidente da Cedae, Aluizio Meyer, não acha que o estado viva uma situação tão crítica, mas reconhece problemas nos mananciais:

- Não apenas o Rio, mas o mundo inteiro trata seus recursos hídricos de forma muito ruim. A degradação dos cursos d'água parece ser algo natural. Para mudar isso, na Cedae, estamos trabalhando forte em recuperação ambiental. No abastecimento, nossa situação é privilegiada. Ainda vamos construir outra estação de captação, a Guandu 2.

Na última semana, chuvas na cabeceira do Paraíba deram um alento: a capacidade dos reservatórios aumentou de 42% para 45,7%. Mesmo assim, há risco de não haver água para tratar, já que a vazão atual do Guandu é de 130 mil litros por segundo e a Cedae precisaria, antes de qualquer novo empreendimento, do dobro do volume d'água tratado - 43 mil litros por segundo - para diluir toda a carga orgânica e industrial.

O projeto símbolo da Cedae é o reflorestamento de 50 quilômetros de margem do Rio Guandu, abastecido pelo Paraíba do Sul através da transposição de águas. Ainda estão previstas a escavação de poços em Vassouras e a ampliação da estação de captação em Pinheiral.

A recuperação não é suficiente, para o deputado estadual Carlos Minc (PT), presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), que anuncia uma investida contra irregularidades no Paraíba e no Guandu.

- Vamos acionar o Ibama, a Delegacia de Meio Ambiente, a Feema e aplicar multas pesadas de até R$ 50 milhões.

Tratamento requer 600t de sulfato de alumínio por dia

Minc é autor da emenda na Constituição estadual que exige o tratamento primário para qualquer efluente lançado no rio, mas reconhece que falta muito para a medida ser respeitada nas bacias estaduais.

No dia-a-dia de Reinaldo Machado, a quantidade de água é o que importa, mas ele se preocupa com a qualidade. Sua função é operar a barragem de Santa Cecília, onde dois terços do Paraíba do Sul são transpostos na direção do Guandu. Das ações de Reinaldo - comandadas pela Operadora Nacional do Sistema (ONT), órgão vinculado ao Governo federal - sai a água que enche o copo de 8,5 milhões de pessoas na Região Metropolitana e na capital.

- Sei que é uma responsabilidade grande, pela quantidade de água. Qualquer problema aqui pode provocar seca. A qualidade? Está mais ou menos, né. É questão de se conscientizar - diz ele.

Passada a transposição, as águas do Paraíba correm até a estação de tratamento de água do Guandu, a maior do mundo. O superintendente da unidade, Edes Fernandes de Oliveira, diz que atualmente o problema são os rios Ipiranga, Poços e Queimados, acima da captação. Isso fez com que, em picos críticos, a Cedae aumentasse em 20% o uso de produtos químicos nos últimos sete anos.

- Em um dia, usamos 600 toneladas de sulfato de alumínio, para tratar apenas dez mil litros por segundo (quatro vezes menos que o normal) - explica Edes.

Embora o problema seja crescente, a Cedae ainda não decidiu entre duas intervenções possíveis: o tratamento do esgoto lançado nos rios ou paliativo de um desvio da água poluída para abaixo da estação de captação.

A unidade de Guandu já sofreu com problemas de qualidade da água, como em 2001, quando a proliferação de algas tornou o odor da água tratada insuportável. Mas, em condições normais, os padrões de potabilidade são respeitados, segundo a companhia. Uma tabela de qualidade da água, sem detalhamento de bairros, é divulgada semestralmente.

Segundo o Ceivap, somados a todos os problemas estruturais, a Cedae ainda é deficitária - vende água a R$ 1,2 por mil litros enquanto o custo é de R$ 1,92. Meyer contesta:

- Isso não existe. O problema é que temos muitos inadimplentes. São R$ 3 bilhões a receber. Nossa receita seria de R$ 160 milhões e a despesa é de R$ 120. O problema é que só recebemos R$ 105 milhões. Assim, devemos R$ 150 milhões de ICMS.